Carta de Fortaleza

Confira a carta de Fortaleza, documento sintese do III Encontro Nacional Ecossocialista do Setorial Ecosssocialista Paulo Piramba do PSOL, realizado entre os 4 e 7 de junho, em Fortaleza. O encontro se dividiu em seis eixos: Agronegócio x Soberania alimentar; Matriz Energética e Mudanças Climáticas; Crise Hídrica; Povos originários e Comunidades Tradicionais; Cidades Ecossocialistas; Oceanos e Zona Costeira; pautando a intervenção nacional do PSOL e acumulando em um programa Ecossocialista.

O documento síntese, aprovado na plenária final do Encontro, está divido em sete pontos; denunciando a oposição do capital à vida no planeta, a necessidade de mudança do sistema para evitar uma catástrofe climática, lógica seletiva na produção energética, a urgência na democratização dos recursos hídricos, a proposta de constituição de cidades ecossocialistas, a defesa dos mares e das zonas costeiras, o enfrentamento contra a utilização em larga escala dos agrotóxicos, a defesa dos povos originários e comunidades tradicionais e a luta por um Brasil Ecossocialista.

CARTA DE FORTALEZA

O CAPITAL SE OPÕE À VIDA!

O sistema capitalista se baseia na acumulação incessante, indefinida, de riquezas; no lucro, no prazo mais curto possível, colocado acima de tudo; na transformação de tudo que se possa imaginar em mercadoria. Essa característica intrínseca ao sistema o torna incompatível com a realidade de um planeta limitado, em que matérias-primas são finitas, fontes de energia, especialmente as centralizadas, necessárias à fome infinita de lucro, não são renováveis e envolvem impactos brutais sobre o Sistema Terra.

Não é à toa que um dos marcos fundamentais do século XXI é que a crise capitalista tornou-se como nunca estrutural, com seu sistema produtivo ameaçando diretamente os sistemas de suporte à vida no planeta, o que inclui, evidentemente, a própria vida humana. 

A contradição irresolvível entre capital e natureza vai do uso da terra, com 3/4 da superfície dos continentes sofrendo intervenção humana direta para agropecuária, mineração ou ocupação urbana aos rios, com 2/3 da água que por eles escoa sendo barrada; da desintegração da biodiversidade, com extinção de espécies 1000 vezes mais acelerada do que a taxa natural provocada pela combinação de caça e pesca predatórias, contaminação ambiental, destruição de habitats, introdução de espécies invasoras à interferência nos ciclos biogeoquímicos, como os do nitrogênio e fósforo, alterados pela introdução de fertilizantes e outras substâncias; da acidificação dos oceanos e a mudança climática, associadas à desestabilização do ciclo do carbono, à destruição da camada de ozônio, proteção imprescindível para formas complexas de vida.

QUE SE MUDE O SISTEMA, NÃO O CLIMA!

Em 2015, pela primeira vez em pelo menos 3 milhões de anos, a concentração atmosférica de dióxido de carbono (CO2) ultrapassou a barreira de 400 partes por milhão, um valor 43% acima daquele registrado no período pré-industrial. A acumulação deste e de outros gases (como o metano, o oxido nitroso e os halocarbonetos) está produzindo uma alteração em escala planetária no balanço energético da Terra, levando a um aquecimento do clima perigosamente acelerado.

O aumento, em frequência e intensidade, de eventos extremos associados à mudança climática, como secas, enchentes, furacões e incêndios florestais, bem como o degelo das calotas polares e a elevação dos mares configuram uma ameaça em escala global à própria organização da sociedade humana, mas é preciso entender claramente que é sobre os pobres, as mulheres, as crianças e os idosos, os países-ilha e o continente africano, enfim sobre os mais vulnerabilizados pelo próprio capitalismo, que incidirá primeiro e mais intensamente a maior parte dos impactos. 2500 mortos na Índia pela onda de calor de Maio/Junho de 2015, mais de 6000 filipinos mortos entre meio milhão de famílias desabrigadas pelo supertufão Haiyan, nas Filipinas, no final de 2013, quase 2000 mortos pelo Katrina, em sua maioria negros pobres da periferia de Nova Orleans... A conta de assassinatos na conta da indústria de combustíveis fosseis, do agronegócio desmatador e demais grandes emissores só cresce...

Para que se evite uma catástrofe climática irreversível, é preciso deixar claro que a maior parte do estoque de carbono existente na forma de petróleo, carvão e gás natural é simplesmente “inqueimável”. Precisa ficar exatamente onde está: no chão. Como a indústria de combustíveis fósseis é dona de reservas além do que o que se pode queimar sem desestabilizar irreversivelmente o clima, medidas baseadas no mercado, como os créditos de carbono ou mesmo um preço sobre o carbono são absolutamente insuficientes. Somente a interrupção imediata dos subsídios a esse setor (que somam 5,3 trilhões de dólares anuais, segundo dados insuspeitos do FMI, levantados pelo periódico britânico “The Guardian”), assim como a expropriação de todo o carbono “inqueimável” podem salvaguardar a humanidade da sanha de lucro da ExxonMobil, Shell, Chevron, BP, China Petroleum etc.

Expropriar esse estoque de carbono e mantê-lo no subsolo implica em não mais explorar as areias betuminosas de Alberta, no Canadá, nem o petróleo do pré-sal brasileiro, nem o carvão no topo das montanhas chinesas; implica em interromper a extração de gás via fratura hidráulica (“fracking”) e a operação ecocida que a Shell está iniciando no Ártico. Implica em reverter as privatizações dessas reservas, como os leilões do petróleo no Brasil, que colocam nossa zona costeira sob risco de acidentes catastróficos como o da BP no Golfo do México e abre caminho para a sua exploração no interior da própria Amazônia brasileira e prepara tragédias como as dos desastres da Chevron/Texaco, no Equador. É preciso, aliás, combater, sem medo, o cinismo que é atrelar o financiamento da educação à exploração de petróleo, a riscos ambientais inadmissíveis, e, claro, a emissões de CO2. A educação pode e deve ser financiada via auditoria da dívida, imposto sobre grandes fortunas e outras medidas que atinjam os ricos.

Rejeitamos igualmente a lógica insana do capital que, desejando continuar com a queima dos combustíveis fósseis, acena com a chamada “geoengenharia” como mecanismo para conter o aquecimento global. Sabemos que é o tipo de “remédio” que consegue ser tão danoso quanto a própria doença. Incompatível com a manutenção do coração energético do capital, a solução da crise climática passa necessariamente por um conjunto de medidas profundamente anticapitalistas: que se mude o sistema, não o clima!

ENERGIA: PARA QUÊ, PARA QUEM?

Dentre as principais medidas a serem adotadas para resolver a crise climática, inclui-se a mudança estrutural do caráter centralizado da geração de energia elétrica, hoje pensada somente através do paradigma das grandes termelétricas a carvão, óleo e gás; das usinas nucleares e da expansão das grandes barragens hidrelétricas, cada uma com impactos e riscos inaceitáveis no contexto de uma sociedade igualitária e socioambientalmente justa.

Primeiro, é preciso travar o combate à própria lógica de “crescimento econômico”, ilimitado, irresponsável, insustentável, como suposto “argumento” para o crescimento da demanda energética. Depois, é preciso rejeitar a matriz poluidora e centralizada estruturalmente ligada ao capital, principalmente seu núcleo financeiro.

No Brasil, nem Belo Monte, nem o conjunto de barragens no Tapajós são de fato necessárias (havendo inclusive indícios de que as mudanças climáticas reduzirão ainda mais o seu baixo rendimento previsto). Atendem na realidade aos interesses das grandes empreiteiras e das corporações do setor energético e das indústrias que demandam uso intensivo de energia (siderurgia, indústria do alumínio e outras). O complexo nuclear de Angra também pode ser perfeitamente desativado, no mesmo ritmo do fechamento das termelétricas movidas a fontes fósseis. No Brasil, é amplamente possível abandonar rapidamente fontes fósseis e nucleares, apostando na descentralização dessa produção, através de fontes renováveis: solar, eólica e outras (maremotriz, por exemplo) aliadas à repotenciação de hidrelétricas já existentes e à redução das perdas na transmissão. Claro, defendemos que as próprias energias renováveis, para poderem ser consideradas “limpas”, sejam implementadas de forma justa, o que exclui a maneira como alguns parques eólicos se estabeleceram, principalmente no litoral nordestino, em conflito com diversas populações locais.

Apostamos na energia solar residencial como fonte privilegiada de geração de energia, capaz, de uma só vez, de zerar emissões de CO2 e o uso de água na geração de energia, baratear a conta de luz através do desconto da energia gerada localmente e gerar empregos como a base para uma matriz energética socioambientalmente justa, rejeitando a lógica do “capitalismo verde”. Que sejam garantidos incentivos imediatos para que ela beneficie milhões de brasileiros.

O PSOL, que nós reivindicamos como partido ecossocialista, compreende que a atual política energética implementada pelo governo brasileiro, baseada na ampliação e diversificação irrestritas da matriz energética, produz impactos e injustiças ambientais em uma escala inédita inaceitável, sobretudo em territórios de povos originários, comunidades tradicionais, campesinas, pesqueiras, ribeirinhas, entre outras. 

O cálculo da demanda energética, hoje baseado em projeções de crescimento do PIB tanto não condiz com o crescimento real, sendo portanto superestimado, como oculta que sua ampliação tem como principal objetivo atender o elevado consumo para produção de commodities minerais e agrícolas, que atendem a demanda do mercado internacional. Além disso, hoje o consumo doméstico não ultrapassa um quarto da produção energética nacional. Por isso, é um imperativo rechaçar o modelo de sociedade baseado num alto consumo energético e estabelecer um debate amplo e democrático em torno dessas questões. 

QUEDÊ ÁGUA?

Pode-se afirmar que nos encontramos hoje diante de uma crise hídrica sem precedentes. Trata-se de um fenômeno que não se restringe ao Nordeste e Sudeste do Brasil, mas que tem assolado e/ou assola neste exato momento diversas regiões do Globo (da Califórnia ao Sahel Africano; da Índia à Amazônia que viveu secas extremas com mortandade recorde de árvores de sua floresta em 2005 e 2010).

Ainda que se considere a privatização criminosa (em casos como o da SABESP), a falta de investimentos para promover o acesso a água e o uso irresponsável, não é possível enfrentar este quadro sob uma lógica simplista de que se trata de um mero problema de gestão. A crise hídrica é algo maior e sistêmico, embora o modelo de gestão atual reflita uma visão de precificação da água que tem levado a sua crescente mercantilização e privatização. 

A falta de planejamento, evidente em várias localidades, bem como a privatização explícita dos recursos hídricos, como praticado por Geraldo Alckmin certamente agudizam a crise e vulnerabilizam ainda mais o abastecimento d'água, incluindo o humano. Mas é fundamental que se aborde, em primeiro lugar, a questão da demanda hídrica e de seu aumento desproporcional. Em 60 anos, se é verdade que a população humana saiu de 2,5 bilhões, em 1950, para mais de 7 bilhões (um aumento de 2,8 vezes), o uso de água doce cresceu mais de 6 vezes no mesmo período. Hoje, globalmente, estima-se que a agricultura demande - em função da irrigação, especialmente em grandes propriedades - de 60% a 70% da água doce. A indústria, com destaque para a indústria pesada, de base, a mineração e a geração de energia, responde por outros 20%, pelo menos, deixando o consumo humano como a menor fatia das três (cerca de 10%). É preciso que se diga que termelétricas, especialmente a carvão, e usinas nucleares, demandam quantidades gigantescas de água para seu funcionamento; que as secas só tendem a se agravar com a mudança climática antrópica, ou melhor, a mudança climática capitalista; que o excesso de demanda e o desperdício, a começar pelos setores que mais consomem – o agronegócio e a indústria; precisam ser urgentemente combatidos.

O esgotamento do modelo de desenvolvimento adotado no Brasil, fortemente agroexportador, é evidenciado no colapso hídrico nacional. Em 4 anos, a demanda por água no nosso país cresceu 17%, muito acima do crescimento populacional, de 3,8%. O uso residencial de água cresceu somente 5,4% no mesmo período e o grosso do aumento da demanda (88% dela) cai na conta da irrigação. E, como sabemos, esta atende quase que exclusivamente, ao latifúndio.

Os projetos hídricos de construção de reservatórios e transposições (como a do São Francisco) geralmente atendem a grandes interesses econômicos. A água é concentrada, a fim de que possa ser usada pelo agronegócio e pela grande indústria, com a maioria da população das cidades pequenas e médias e da zona rural permanecendo na penúria. 

Assim, é o próprio modo de produção que se entrelaça com a crise hídrica tanto diretamente, pelo uso intensivo de recursos hídricos, quanto indiretamente, pelas emissões de gases de efeito estufa. Por meio de ambos os aspectos e sua necessidade de crescimento indefinido engendra um comportamento predatório que lhe é essencial, incontornável. A produção de um único quilograma de carne bovina requer em média 17 mil litros de água. Uma única tonelada de aço produzida numa siderúrgica pode demandar até 300 mil litros. Uma termelétrica a carvão, para cada 1MWh gerado, consome 3 mil litros e uma usina de grande porte demanda quase mil litros de água a cada segundo ao mesmo tempo que emite 2,5 milhões de toneladas de CO2 por ano, o que mostra quão falso é apresentá-las como alternativas à crise do setor hidrelétrico. A crise é hídrica, energética e climática ao mesmo tempo.

A luta pela água como direito humano não é, claro, somente para que se tenha o recurso em quantidade necessária ao atendimento das reais necessidades humanas. É uma luta pela sua qualidade, contra a contaminação por metais pesados, fertilizantes que causam eutrofização, antibióticos que desequilibram as populações de microrganismos etc.; é uma luta também pelo saneamento.

A solução da crise da água passa por um combate sem tréguas à injustiça hídrica. Primeiro, é necessário que haja não apenas total transparência na alocação, uso, transposição da água etc., mas que se respeite a soberania popular na definição da política hídrica. Segundo, na crise, é necessário penalizar os de cima, os que se beneficiam da política privatista perdulária. Urge enfrentar os lucros exorbitantes do agronegócio e da grande indústria, que se dão às custas da secagem de reservatórios hídricos, emissão de gases de efeito estufa e, em última instância do desabastecimento que espalha sede, miséria e barbárie.

POR CIDADES ECOSSOCIALISTAS!

A antiga contradição entre a cidade e o campo assumiu contornos dramáticos no século XXI. Com a maior parte da população mundial habitando grandes assentamentos urbanos, é preciso reconhecer que a crise de civilização é efetivamente uma crise de urbanização. 

As cidades “funcionam” numa lógica predatória, de alienação metabólica. Água e alimentos parecem vir de lugar nenhum, o mesmo lugar para onde são enviados nosso lixo, nossos resíduos. A exploração do campo pela cidade só encontra paralelo na exploração, nas cidades, das trabalhadoras e trabalhadores. A violência das grandes cidades contra o ambiente só encontra paralelo na violência das próprias classes dominantes contra os pobres do meio urbano, despejados e atirados às periferias, privados de serviços públicos e muito mais expostos aos impactos ambientais da própria cidade, incluindo a poluição industrial.

No Brasil, a frota automobilística duplica a cada 12 anos. Os engarrafamentos, do aumento das emissões de gases de efeito estufa e material particulado, do crescimento das doenças respiratórias, a expansão do asfalto e do concreto em substituição aos vestígios de verde tornam cada vez mais nossas cidades ambientes adoecedores, literalmente irrespiráveis. Desiguais e violentas, refletem a própria ordem sufocante e tirânica do capital.

À lógica de uma cidade consumidora versus um campo produtor, apontamos o fim do parasitismo que o capital molda no meio urbano: com fontes ambientalmente limpas e socialmente justas de geração de energia, como a solar residencial; com transporte público de massas, digno e não-poluente/não-emissor, com passe livre, priorizando o deslocamento por meios metroviário/ferroviário (e aquaviário quando possível) em detrimento do rodoviário; com planos diretores voltados para a maioria e não para a especulação imobiliária; com integração aos biomas que as circundam e com produção de parte importante dos alimentos que elas demandam; com um tratamento adequado dos resíduos sólidos, reduzidos e reciclados ao máximo, e líquidos; que sejam cidades ecossocialistas, rumo à resolução da contradição com o campo.

Em cada luta nas cidades, por transporte público, educação e saúde, contra o extermínio de pobres e negros/as, em defesa dos direitos das mulheres, crianças, adolescentes e idosos, nas lutas dos trabalhadores/as, articularemos a noção de uma cidade que seja parte da natureza e não sua antítese, a fusão da defesa do direito à cidade com o combate ao caráter globalmente destrutivo do capital. É nesse contexto que enfrentaremos as tentativas de flexibilização de licenças ambientais, alvarás, etc.; defenderemos as áreas verdes urbanas com toda sua importância e simbolismo.

DEFENDER OS MARES E A ZONA COSTEIRA!

Acossados pela pesca predatória, a contaminação química, a presença de quantidades imensas de resíduos sólidos (como as chamadas “ilhas de lixo”) e pela acidificação associada ao excesso de CO2 na atmosfera, os oceanos estão em perigo.

Abrigo de uma enorme – e pouco conhecida – biodiversidade, os oceanos são também a fonte mais importante de sustento de centenas de milhões de seres humanos, inclusive sendo a principal fonte proteica de muitos brasileiros e brasileiras.

Na transição para o continente, os ambientes costeiros e estuarinos cumprem papeis igualmente fundamentais. Os manguezais são, ao mesmo tempo, estoques importantes de carbono, berçários para inúmeras espécies e meio de sustento para inúmeras comunidades costeiras no mundo e no Brasil.

Hoje, a exploração do petróleo, o turismo de grande escala, a circulação de navios, com vazamentos de óleo e liberação da água de lastro (com microrganismos e espécies invasoras capazes de desestabilizar os ecossistemas locais), a carcinicultura e piscicultura (que além de abusarem de químicos, tratam verdadeiras extensões do mar e da costa como propriedade e mercadoria) e até a introdução – sob a lógica capitalista – de energias consideradas “limpas” promovem um conjunto de ameaças que precisam ser combatidas como um todo. A articulação das lutas dos povos do litoral com as demais lutas em defesa do ambiente e dos direitos dos/as trabalhadores/as é para lá de necessária e urgente.

ENFRENTAR O AGROTÓXICO NEGÓCIO!

Principal vilão da crise hídrica brasileira, o agronegócio tem recebido incentivos governamentais crescentes. Ao mesmo tempo em que diversas áreas como a Reforma Agrária e a Educação sofrem cortes orçamentários brutais, a política de “austeridade à brasileira” não apenas preservou os recursos destinados ao agronegócio como os ampliou em quase 20% de um ano para o outro.

Além de ser uma atividade hidrointensiva, os impactos socioambientais do agronegócio são profundos, mostrando claramente o quão insustentável ele é. Agrotóxicos são utilizados em larga escala (incluindo pulverização aérea), ao ponto de, no Brasil, se chegar à impressionante marca de 5 litros por habitante por ano. Eles envenenam trabalhadores e trabalhadoras, populações rurais e quem consumir os alimentos. Eles contaminam solo, rios, a fauna e flora silvestres, matam insetos como abelhas e outros agentes polinizadores, desequilibrando o ecossistema e prejudicando a própria produção de alimentos. O uso de fertilizantes leva igualmente à contaminação ambiental, com excedentes de nitrogênio e fósforo e a emissão de óxido nitroso, terceiro gás de efeito estufa antrópico em importância.

O avanço da fronteira agrícola se dá a um custo enorme. Porções cada vez maiores de biomas como o cerrado e a floresta amazônica dão lugar a pasto e soja, havendo indícios de que o ritmo de desmatamento voltou a aumentar depois de a bancada ruralista ter patrocinado (com o protagonismo do negacionista climático Aldo Rebelo) o desmonte do Código Florestal, assegurado a anistia aos desmatadores, e reduzido a proteção de rios, encostas e nascentes. Além de contribuir com o aquecimento global, com as emissões de dióxido de carbono pelo desmatamento e metano pelo rebanho bovino, a contaminação com produtos químicos e a compactação dos solos pelo gado amplificam a degradação, fazendo com que o agronegócio deixe em geral, por onde passa, um cenário de terra arrasada. Para mostrar ainda mais que o domínio do grande capital sobre a produção de alimentos é inconciliável com o atendimento das necessidades humanas, vê-se o avanço da transgenia, que confere o controle do que se planta e do que se come, via monopólio do DNA, nas mãos de um punhado de empresas inescrupulosas do naipe da Monsanto, Bayer e Syngenta. 

Por fim, mas não menos importante, o agronegócio têm estabelecido conflitos com trabalhadores rurais, comunidades tradicionais e povos indígenas num ritmo inédito. O Brasil é disparadamente o país com maior número de assassinatos de lideranças rurais, ambientalistas, quilombolas e indígenas e neste contexto, à sanha assassina e devastadora do agronegócio, apresentamos a proposta de uma reforma agrária agroecológica.

EM DEFESA DOS POVOS ORIGINÁRIOS E POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS!

O Brasil é um país multicultural, na verdade, plurinacional, entretanto, historicamente os povos originários do Brasil vieram sendo subjugados à violência colonizadora com consequente perda de seus territórios. Hoje, a pressão por novas áreas para a expansão de projetos que objetivam dar sustentação ao atual modelo econômico, vem significando uma ofensiva sobre a manutenção dos territórios de diversas comunidades que ainda não foram completamente integradas ao modelo de funcionamento da sociedade capitalista e que, portanto, mantém relações com o seu espaço a partir dos valores de uso dos bens naturais, em prol da manutenção da vida, empreendendo atividades agrícolas e extrativistas, como povos e comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e pequenos proprietários de terra.

A necessidade gerada pela reprodução capitalista, cujo modelo em crise busca encontrar saídas para a permanente expansão, avança sobre os territórios aprofundando as injustiças ambientais, num processo de acumulação por espoliação, que privatiza os bens naturais e expulsa as populações de sua terra e território, o que tem resultado no aumento de conflitos e violência no campo, envolvendo os povos indígenas e fazendeiros, madeireiros, garimpeiros, empresas e imobiliárias. 

No plano político está em curso um ataque aos direitos que, com a Constituição do Brasil de 1988, foram reconhecidos. As demarcações de terras e territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais e a reforma agrária nunca atingiram tão baixos índices. Se durante os dois mandatos do governo de FHC foram 145 áreas homologadas (equivalente a 41 milhões de hectares) e nos dois mandatos de Lula da Silva esse número caiu para 84 áreas (18 milhões de hectares), no governo de Dilma Rousseff foram apenas 14 áreas homologadas (2,26 milhões de hectares). 

Por outro lado a força e o espaço que ganharam os setores empresariais ligados à mineração, à pecuária e ao agronegócio, já demonstra os retrocessos. Sua representação no Congresso Nacional, através da bancada ruralista, já intenta a aprovação da PEC 215 e outras propostas, após a derrota que impuseram à sociedade com a aprovação do novo código florestal, o fim da identificação dos transgênicos e a legalização da biopirataria. Aliás, defender os direitos indígenas, nesse contexto, é defender o próprio sistema climático global: as terras indígenas na Amazônia emitem 25 vezes menos CO2 do que as não-indígenas...

Nesse sentido, nos últimos anos há em curso uma grave crise envolvendo o movimento indígena e o governo de Dilma Rousseff. A politica anti-indígena e antiquilombola que o governo vem adotando tem desencadeado uma série de manifestações de diversos povos e ocupações permanentes no Congresso Nacional exigindo a demarcação imediata das terras indígenas e quilombolas, a aprovação do Novo Estatuto dos Povos Indígenas (o que implica frear as PEC´s e leis complementares que atentam contra os direitos reconhecidos na Constituição de 1988), a aplicação da Convenção 169 (OIT) e a Declaração da ONU assegurando consulta prévia e democrática a respeito de decisões que afetam os direitos indígenas e quilombolas.

A defesa dos direitos dos povos originários e comunidades tradicionais passa também pela perspectiva que apontamos, de contraponto ao capitalismo. Seus modos de vida são, ao contrário dos que os caracterizam como “povos atrasados”, bem mais harmonizados com o ambiente, por meio de suas tecnologias sociais. E um modo de vida que não seja medido nem pelo PIB nem pelo acesso a bens de consumo descartáveis e fúteis, com os valores do “Bem Viver”, como o desses povos e comunidades, pode e deve servir de inspiração para a nova sociedade que – pretendemos – dê lugar à barbárie do capital. Não há socialismo num só País, costumamos afirmar em meio à esquerda. Mas também não há socialismo possível em Terra/terra arrasada, nem socialismo no século XXI que não seja ecossocialismo. E não há, por fim, ecossocialismo possível sem o reconhecimento dos direitos e a valorização do modo de vida de indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

RUMO A UM BRASIL ECOSSOCIALISTA!

O futuro escrito pelo capital é árido, cinza e com cheiro de morte. Mas o sopro benfazejo das lutas, da favela à aldeia, da escola ao quilombo, há de reescrevê-lo, em verso, em aroma e em cores. E cheio de mato, de mar e de amor, o futuro reescrito será social e ambientalmente justo, infinitamente natural e humano.

 

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